Volta e meia eu e minha esposa conversamos durante horas e horas nos questionando: vale à pena ter um filho nos dias de hoje? Ainda não chegamos a alguma conclusão, os pontos de divergência são muitos: religião, escola, time de futebol, horário para ver televisão, quais programas ele(a) poderá assistir, come MacDonalds, não come MacDonalds, enfim... muitos senões. Todavia, o que mais me desanima da idéia de ter um filho, é imaginar que um dia ele será adolescente.
Se os seres humanos passassem direto da infância – aquela fase em que são cheirosinhos, rechonchudinhos, engraçadinhos – para idade adulta – aquela fase em que se consegue ter um diálogo no mínimo razoável sobre as questões de maiores relevâncias na vida (sexo, literatura, música, vinho, massas, cerveja e futebol), eu teria uma dúzia de filhos. O problema é que, invariavelmente, eles serão adolescentes. Em algum momento da sua vida aquela bolinha de carne carinhosa e bonitinha será abduzida por seres extraterrenos e no lugar colocarão um ser sombrio, macabro e inconformado com qualquer coisa que aparecer na frente dele. Será contra tudo aquilo que você defender. Serão detentores da verdade. Saberão mais do que você. Beberão mais do que você! (Só que escondidos). A partir de uma certa idade, bebemos para apreciar o sabor de um bom vinho. Na adolescência, bebemos para desafiar a resistência do nosso fígado, pobrezinho.
Entretanto, existem algumas diferenças cruciais entre a adolescência atual, e a adolescência de alguns anos atrás.
Antigamente (leia-se, na minha adolescência), quem era dark, gótico ou afins, era de verdade. Os caras eram brancos como velas por que se recusavam a sair no sol. Hoje existe maquiagem que pode esconder até a marquinha do biquíni. Antigamente, carro rebaixado, rodão, vidro fumê, era coisa de playboy. Na sonzera do seu gol GTI 1.8 só tocava “poperô”: Ace of Base, Double You, Corona (a cantora, não o chuveiro: “the summer is magic, is magic, ô, ô, ô, the summer is magic). Hoje em dia tem carro rebaixado com néon no assoalho tocando de tudo: dance, trance, pagode, funk, rock! Isso mesmo, até rock está tocando! Porra, quem ouvia rock não tinha carro! Andava a pé até o All Star furar. E não era por que o All Star estava na moda, é por que era o tênis mais barato que tinha para vender no mercado público, depois do kichute. Antigamente o punk tinha calça rasgada porque só tinha uma calça no guarda roupa, e o cara usava a calça até ela se desmanchar. Hoje o cara entra mauricinho por uma porta do Shopping Center, e na outra sai transformado: piercing, moicano descolorido, calça rasgada, tatuagem, tudo que tem direito.
Adolescentes amam e odeiam muito mais do que os adultos. Entre os quatorze e dezenove anos, serão pelo menos 32 amores eternos. “Dessa vez eu tenho certeza, ele é perfeito! Nunca senti nada igual...” Até que encontra ele com a melhor amiga na praça de alimentação do Shopping Center, tomando MilkShake de Ovomaltine no mesmo canudinho. “Ai que ódio! Eu bem que desconfiava...”
Hoje em dia as tribos não se encontram mais nas ruas e botecos, como acontecia antigamente. Elas se encontram no orkut.
Tem a tribo dos “emos”, com seus cabelos lambidos, seus olhos com sombra preta e seu sofrimento sem fim. Adoro ver o álbum de fotos desses caras. A cabeça baixa, o olhar deprê e a frase: “A noite não termina quando o anjo da solidão invade a nossa alma. Depois... só dor e desespero.”. Algo tão profundo e sofrido que nem o Renato Russo seria capaz de escrever.
Tem a tribo das patys/surfistinhas. Todas tiram fotos fazendo biquinho. Todas usam óculos e boné (vide comunidade: “mina de boné é frentista”. Eu recomendo). Todas usam sapato plataforma, miniblusa três números a menos do que o seu (para criar a falsa impressão de que os seus púberes seios que mal começaram a nascer já são comparáveis aos de uma Fafá de Belém), 15843 pulseiras de prata em cada braço (o que me leva crer em uma forte descendência cigana), calça de ginástica enfiada no útero e, na legenda da foto o poeta da nova geração: Chorão! “Ela não é do tipo que se entrega na primeira e etc, etc, etc”.
Tem a tribo dos cyber-manos. Boa parte dos adolescentes orkutizados do sexo masculino, tende a tirar fotos com um boné torto na cabeça, estampado, de aba reta, redinha na parte de trás, óculos escuros e uma corrente de prata de oito quilos no pescoço. Cara, no meu tempo (um dos maiores indícios que estamos ficando velhos e quando começamos a falar com certa freqüência a frase: “no meu tempo...”) se um camarada aparecesse com boné estampado e de redinha atrás, ia virar piada: “qualé ô mané, ganhou o boné de algum vereador?”. Boné de verdade tinha que ser todo fechado, bordado na frente (Chicago Bulls, Los Angeles Lakers, Charlotte), oito linhas na aba e pininho de ferro. No meu tempo, se um cara aparecesse com o boné torto, coitado... HÁÁÁÁ, SERGINHO MALLANDRO, GLU, GLU, GLU. E pelo resto da adolescência carregaria a alcunha de Serginho Malandro. No meu tempo, se um cara aparecesse com o cabelo para fora do boné, parecendo uma moita por cima das orelhas, tal qual o fazem os garotos de hoje em dia: BOZO! VOCÊ TÁ FELIZ? ENTÃO DÁ UM BEIJO NO MEU NARIZ!. E mais, se um cara me aparecesse com um lenço na cabeça, amarrado com um nó sobre a testa, coitado: TIA ANASTÁCIA, DONA BENTA!
Já ia me esquecendo da legenda: eH nOi$!!! sOh a dIreToRiaH!!! mExEu cUs irMauM AgoRaH GueNtAh!
Os tempos estão mudando.
Mas eu só me dei conta disso de verdade, quando ouvi dois carinhas conversando no ônibus:
_Tipo, pô cara, tá ligado, tipo, tomei maior ferro ontem, tá ligado?
_Só...
_Tipo, fui lá na parada, tá ligado, e tipo, tomei todas mano, tá ligado?
_Só...
_Tipo, na real, pode botar fé guerreiro, enchi a cara forte, só simrnoff ice a noite inteira!
_Só...
PUTAQUEOPARIU!!!!!
SMIRNOFF ICE ERA BEBIDA DE MENINA!Moleque que era macho tomava porre com vinho castelinho, aquele que vem em garrafa de plástico e que pode ser feito em casa (basta misturar tang de uva com álcool de cozinha. Líquido, o em gel não fica tão bom), ouvindo Geração Coca-Cola no toca-fitas.
Renato Russo e Cazuza eram os formadores de opinião.
Hoje é Smirnoff Ice com Charlie Brown Jr. ou CPM 22 no mp3 player.
O Badauí é o formador de opinião.
Acho que não vou ter filhos...
(Reproduzido do site TôPuto , com autorização do autor)
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Postar um comentário